O ÚLTIMO ALFAIATE, POR ADROALDO ALMEIDA

Sobre o lábio fino, cultivava um bigodinho aparado, de malandro, manhoso; mais acima, depois do nariz aquilino, os olhos orientais, esticados e apertados, realçavam o sorriso esperto, inteligente e precavido, na moita.

Manoel Souza Silva, atendia aos clientes como Mané Goteira, enquanto cortava tecidos e riscava modas, tagarelava sobre o Vasco da Gama e troçava de Nande Jupará, seu auxiliar e eterno aprendiz, ao contrário do Mestre, flamenguista, calado e arredio, de costeletas largas e humor inexistente.

Há quase meio século, no tempo da infância e da juventude, eu passava na porta da alfaiataria de Goteira a caminho da escola e parava na janela para falar de futebol; depois, na vida adulta, ocupado pelas desimportâncias da labuta diária, às vezes o visitava, agora para conspirar sobre política; ele falava baixo, quase sussurrando, a favor das causas do povo.

Ontem, num domingo frio de inverno, acompanhei Marquinhos, seu filho, e Danillo, seu neto, a caminho do cemitério, no cortejo do féretro que levava Goteira em sua última viagem. A poucos passos da sepultura, quando a caixão desceu e o agente funerário atarraxou os parafusos da tampa, olhei em volta para os amigos presentes, todos tristes, se compungiam pelo remorso da ausência na derradeira quadra da vida dele, talvez; foi quando percebi que ali, naquele momento e naquela hora, parte da história de uma geração inteira também morria.

Toda a cidade perdia o último artífice de uma categoria profissional, o artesão dos tecidos nobres, da urdidura das calças e das camisas, do corte exato, da bainha correta, do colarinho seguro, do vinco elegante; nenhum botão solto, nenhum punho folgado. A vida justa e perfeita havia sido sepultada, enterrada e desaparecida como a agulha no palheiro ou um dedal que sumiu.

Em casa, à noite, abri o guarda-roupas e contemplei o excesso de vestimentas, tirei todas as peças que não me serviam mais ou que eu já não as usava, na intenção de doar como homenagem ao morto e, certamente, para aplacar algum remorso; então, notei alarmado que todos os trajes eram de pronta-entrega, manufaturados em linhas de produção, por tarefas divididas entre operários de alguma fábrica, da indústria fria e impessoal, não havia sequer uma única bermuda feita por um alfaiate no recesso da sua oficina, como Goteira tanto produzira com a finesse do seu talento. Voltei para a cama e fui dormir tomado por uma imensa dor pela morte de um amigo e a tristeza de saber que com ele um pedaço do mundo se acabava em minha cidade.

Adroaldo Almeida
04 de julho de 2021

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